por Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche Homenagem ao Guru! Isto é dirigido àqueles que permanecem em retiro de três anos na França. Vocês que vivem na Europa e em outros países modernos possuem todas as comodidades e confortos que esta vida oferece, mas até recentemente jamais haviam sequer ouvido falar da prática do Dharma. Nos tempos recentes, aconteceu que os ensinamentos declinaram no Tibete, e muitos lamas, seniores e juniores, das quatro escolas do Budismo Tibetano chegaram à Índia. Agora, enquanto seus diversos ensinamentos estão sendo revitalizados e o tempo destinado à permanência do Buddhadharma ainda não se esgotou, vários grandes mestres foram visitar e se estabelecer em outros países. Como resultado, muitas pessoas no mundo moderno desenvolveram a intenção de praticar o Dharma.
Os estudantes de meu mestre Kangyur Rinpoche, em particular, passaram a me considerar como seu próprio guru-raiz e têm o sincero desejo de praticar o Dharma ao longo de toda a vida. Com a inspiração e o apoio de Tsetrul Pema Wangyal Rinpoche, estabeleceram um centro de retiro em Chanteloube. O verdadeiro propósito desse centro é que aqueles que permanecem em retiro se estabeleçam firmemente no caminho para a libertação. Ao fazê-lo, estarão cumprindo a visão iluminada de Kangyur Rinpoche, servindo seus próprios mestres e fazendo o melhor uso possível dos muitos ensinamentos profundos que receberam.
Com isso em mente, todos que se comprometem a permanecer em retiro devem assegurar que fé, renúncia, compaixão e investigação da natureza da mente estejam no próprio coração de sua prática.
“Fé” significa confiança completa e apoio inabalável nas Três Joias em geral, e em nosso próprio guru em particular, bem como no Dharma que estamos praticando.
Se praticarmos por muito tempo, pode acontecer que, após algum tempo, surja o pensamento:
“Ainda não obtive nenhum sinal de progresso! Talvez o guru não tenha me dado as instruções mais profundas. Seria melhor fazer a prática principal em vez das preliminares, pois é mais profunda!”
Ou, se estivermos fazendo a prática principal, poderemos pensar:
“Acho que seria melhor deixar de lado esta simples prática do estágio de geração (kye-rim) e fazer o estágio de completude (dzog-rim).”
Ou ainda:
“O Dzogchen deve ser mais profundo do que essas práticas de estágio de completude, como o tummo.”
Você pode imaginar que, assim que receber os ensinamentos de Dzogchen, terá todo tipo de experiência elevada e profunda, mesmo após poucos dias. Se tiver expectativas tão altas, quando as coisas não acontecerem dessa maneira, começará a duvidar das instruções e a relaxar sua diligência.
Ou, se desenvolver o menor vislumbre de renúncia ou obtiver alguma pequena experiência ou realização, poderá surgir orgulho e pensar:
“As escolas Kagyu, Sakya e Gelug não têm nada comparável a esses ensinamentos Nyingma!”
É essencial evitar tais visões equivocadas e não supor arrogantemente que tenha alcançado alguma experiência ou realização especial. Não importa quem você seja, a mente ordinária está sempre sujeita a mudança e transformação. Portanto, procure nunca se deixar levar.
Mesmo que você praticasse dia e noite, com diligência incansável, durante doze anos completos e ainda assim não tivesse sequer um único sonho auspicioso, jamais deve perder o ânimo. Reconheça que isso se deve simplesmente à força de suas próprias obscurações e tenha plena confiança de que nem seus mestres nem os ensinamentos jamais o abandonarão.
Por outro lado, ainda que você progredisse tão rapidamente que, em apenas um único dia, alcançasse o nível no qual nada mais há em saṃsāra a ser abandonado nem nada mais em nirvāṇa a ser obtido, não deve sentir orgulho. Fazer isso apenas convidaria o demônio dos obstáculos. Foi por isso que Jetsün Milarepa disse:
“Quando você estiver se aproximando do fim do Dharma,
Continue incessantemente, sem altos nem baixos,
Sem esperar sinais de realização rápida,
Assegure que sua prática perdure enquanto você viver!”
Este é um conselho extraordinário.
Renúncia
“Renúncia” significa que, enquanto estiver no centro de retiro, cada vez que recitar a Oração das Sete Linhas ou completar uma única mālā de mantras de Maṇi, você deve dedicar essa prática à obtenção da budeidade para si mesmo e para todos os seres sencientes.
Durante o retiro, não desperdice sequer um único momento em ociosidade ou frivolidade. Evite qualquer forma de falta de sinceridade ou duplicidade — como fingir, enquanto está à vista dos outros, que pratica perfeitamente.
Faça tudo o que puder para trazer sua mente obstinada sob controle e para desenvolver fé, diligência e renúncia. Nunca pense que o Dharma que você pratica é apenas para seu próprio benefício. Recitar até mesmo um único mantra de Maṇi traz benefício inconcebível — portanto, dedique-o para o bem de todos os que vivem.
Repetidas vezes, cultive compaixão por todos os seres sencientes em geral e, de modo especial, por aqueles que não gostam de você. Pode ser difícil no início, mas jamais alcançará a iluminação enquanto continuar a nutrir má vontade em relação aos seus inimigos. Aqueles que hoje são seus inimigos foram, em vidas passadas, seus familiares. Não há nada fixo na condição de inimigo ou amigo. Sentir hostilidade pelos inimigos e apego pelos amigos é apenas uma forma ilusória de percepção.
Se você treinar sua mente para reconhecer tudo como insubstancial, semelhante a um sonho, a hostilidade perderá completamente o sentido. Isso é de importância crucial. Normalmente, nossas vidas são movidas pelo anseio por alimento, vestimenta, posses, parceiros, status e reconhecimento. Empregamos grande esforço para encontrar as formas mais astutas e eficientes de obtê-los e pensamos: “Fulano tem tanto dinheiro, meus amigos têm tanto, então eu preciso de mais.” Ou: “No passado eu morava nesse tipo de casa, nessa parte da cidade; agora irei para um lugar melhor.”
É preciso interromper totalmente esse tipo de pensamento.
No trabalho mundano, quanto mais você faz, mais sofrimento cria para o futuro. Mas agora que encontrou uma preciosa existência humana, encontrou um mestre autêntico e recebeu os ensinamentos do Dharma, sua condição é ainda mais elevada e afortunada do que a de Indra, rei dos deuses. Se colocar os ensinamentos em prática com determinação inabalável, certamente encontrará felicidade em todas as suas vidas futuras.
Portanto, contente-se apenas com o alimento e as vestes mais básicos. Em termos simples: faça tudo o que puder para renunciar e minimizar os afazeres e atividades ordinárias do saṃsāra.
Ninguém deve permanecer no centro de retiro sem tomar os votos de refúgio. Mesmo que você seja um praticante leigo, durante os três anos de retiro deve abster-se de relações sexuais. Além disso, enquanto estiver em retiro, é extremamente significativo e benéfico usar as vestes monásticas. O próprio Buda declarou que qualquer pessoa que tenha tomado os votos de refúgio pode usar as vestes monásticas.
Compaixão
De modo geral, vocês vêm praticando os ensinamentos do Mahāyāna desde que ingressaram pela porta do Dharma, e isso nada mais é do que compaixão. Sem compaixão genuína, simplesmente não há possibilidade de alcançar a budeidade.
Iludidos, todos os seres de saṃsāra valorizam apenas seus próprios interesses egoístas e negligenciam o bem-estar dos outros. No momento, por mais que estejamos bem providos de alimento, vestuário ou bens materiais, e por mais felicidade que experimentemos, nunca estamos satisfeitos. Ao mesmo tempo, se doarmos mesmo uma pequena fração do que possuímos, sentimos como se estivéssemos perdendo algo imenso.
É preciso abandonar tais atitudes. Em vez de cuidar apenas de nós mesmos, devemos aprender a valorizar os outros. Antes negligenciávamos os demais; agora devemos negligenciar nossos próprios objetivos egoístas. Sempre que realizarmos qualquer ação virtuosa com corpo, fala ou mente, devemos primeiro lembrar que o fazemos como meio para conduzir todos os seres à iluminação.
Na prática do Dharma, o mais importante é a motivação. Se estiver motivada pelo desejo de beneficiar todos os seres, então até mesmo uma única prostração ou uma única recitação do mantra de cem sílabas produzirá mérito inesgotável — mérito que permanecerá até alcançarmos a iluminação e não restar mais nenhum ser em saṃsāra.
Se, porém, não houver essa motivação de benevolência universal, então mesmo cem mil prostrações ou cem mil recitações do mantra de cem sílabas produzirão fruto apenas uma vez, e o mérito se esgotará. E um único surto de raiva será suficiente para destruir todo o acúmulo de virtude.
É crucial compreender isso.
Se considerarmos que nossa prática é para o benefício de todos os outros, então, como os seres sencientes são infinitamente numerosos, nosso próprio mérito será igualmente vasto.
Ninguém está completamente livre do sofrimento. Portanto, contemple todos os sofrimentos, grandes e pequenos, que recaem sobre os outros, e imagine que estejam acontecendo com você. Como se sentiria? Certamente faria tudo o que pudesse para evitar essa dor. Assim, reflita continuamente sobre todos os sofrimentos que os seres experimentam e desenvolva o desejo compassivo de que estejam livres do sofrimento.
Quando a compaixão é genuína, o desejo de beneficiar os outros surge naturalmente.
Nosso mestre, o Buda, quando ainda era um bodhisattva, possuía uma compaixão tão vasta e avassaladora que fez quinhentas preces de aspiração para nosso benefício. Como seus seguidores, também devemos fazer da compaixão o próprio coração de nossa prática.
Os benefícios imensuráveis de gerar compaixão genuína são descritos detalhadamente em As Palavras do Meu Mestre Perfeito e no Bodhicaryāvatāra. Estudem-nos atentamente.
Investigando a Natureza da Mente
Para investigar a natureza da mente, devemos compreender que todos os seus pensamentos ordinários — sobre qualquer coisa que possamos imaginar — são vazios e insubstanciais.
Até agora, fomos escravos do que chamamos de “mente”, forçados a vagar impotentes pela existência saṃsárica. Agora precisamos inverter essa situação e assumir o controle de nossa própria mente.
Isso será fácil se houver alguma compreensão real de que a mente é vazia. Mas apenas sustentar uma noção vaga da vacuidade da mente — pensando: “É isso que os mestres dizem” ou “É isso que os textos afirmam” — não nos ajudará a reconhecer a insubstancialidade de nossa própria percepção ilusória.
Volte a atenção para dentro e permita que a mente descanse. Você perceberá não apenas um pensamento, mas muitos.
Por exemplo: se pensa em sua mãe, esse é um pensamento. Mas ele evoca outros pensamentos — lembranças da bondade que ela demonstrou. Se ela ainda está viva, pode surgir o pensamento de visitá-la; se não está, pode surgir tristeza. Esses são pensamentos de apego.
Se pensa em seus inimigos, recordando as maneiras pelas quais o prejudicaram no passado, imaginando que o prejudicarão novamente no futuro e pensando em como deveria livrar-se deles, esses são pensamentos de aversão.
Você pode perguntar: de onde surgem apego e aversão?
Na verdade, surgem da crença ilusória na existência do que chamamos de “eu”.
Onde esse “eu” pode ser encontrado? Está no corpo ou na mente?
Se você examinar verdadeiramente o corpo — carne, sangue, ossos e pele — não encontrará nada que possa ser chamado de “corpo” em si. Como, então, poderia ser esse o local do “eu”?
Quanto à mente, ela é insubstancial. Como poderia o “eu” residir nela?
Na verdade, o “eu” é apenas um conceito, um pensamento. Não há localização dentro de um pensamento, nem algo que possa permanecer ali. Ainda assim, o poder de um pensamento — como o pensamento de nossa mãe — leva ao surgimento de outro pensamento, sobre sua bondade, e este, por sua vez, inspira o desejo de vê-la.
Se examinarmos esse processo com mais atenção, veremos que, enquanto pensamos na bondade de nossa mãe, o pensamento inicial sobre ela já não está mais presente — ele já passou. E o pensamento de que devemos visitá-la ainda não surgiu — ele ainda está no futuro. Assim que investigamos, o pensamento presente sobre sua bondade já não está ali; ele já se transformou no pensamento futuro de querer visitá-la.
Isso significa que os pensamentos de passado, presente e futuro não podem existir simultaneamente. Usamos esses termos apenas para fins de comunicação. O passado já se foi, como alguém que morreu; o futuro — aquilo que ainda não chegou — não existe de modo algum. Na verdade, não há algo como um “pensamento presente” existindo independentemente do passado e do futuro. Antes de pensarmos em nossa mãe, aquele “pensamento presente” ainda estava no futuro. Quando pensamos nela, tornou-se presente. E, ao evocarmos sua bondade, já se encontrava no passado.
O fato de um pensamento atravessar essas três fases do tempo é sinal de sua impermanência, e tudo o que é impermanente é vazio. É precisamente porque algo é vazio que pode mudar ao longo do passado, presente e futuro.
Considere a superfície de um espelho: por ser vazia — não fixa em uma forma particular — os reflexos podem aparecer nela. Quando a imagem de uma pessoa surge no espelho, o reflexo se assemelha à pessoa real, mas o rosto da pessoa não entrou no espelho nem foi transferido para sua superfície. A imagem aparece devido a causas e condições — a clareza do espelho e a presença do rosto diante dele.
O reflexo e o rosto não são a mesma coisa. O reflexo é inanimado, e quando desaparece, o rosto real não desaparece. Um rosto pode ser queimado pelo fogo; um reflexo não pode. Contudo, também não são completamente diferentes, pois o reflexo não pode surgir sem o rosto, e se a pessoa sorri ou expressa raiva, o reflexo aparece do mesmo modo.
Da mesma forma, pensamentos e reflexos parecem reais apenas quando não os examinamos. Quando pausamos e os investigamos, descobrimos que, embora apareçam, não existem verdadeiramente. E isso não se aplica apenas a esses fenômenos. Vale para todas as aparências de nossa experiência saṃsárica ilusória: parecem reais enquanto não as investigamos profundamente; quando investigamos, percebemos que não são reais. Por isso as chamamos de “realidade aparente não examinada”.
Quando essa compreensão se desenvolve e se estabiliza, tornando-se autossustentada, chamamos isso de experiência. Quando nos tornamos cada vez mais familiarizados com ela, a ponto de a mente não mais ser arrastada por apego ou aversão, chamamos isso de realização.
Ao examinar repetidamente os pensamentos dessa maneira, vemos que, embora não tenham existência real, ainda assim aparecem; e embora apareçam, são insubstanciais. Ao mesmo tempo, compreendemos que passado, presente e futuro existem apenas como nomes ou designações, nada mais do que isso.
Se tivermos essa compreensão, então, ao pensar em nossa mãe e recordar sua bondade, não precisaremos sucumbir ao apego. Podemos refletir:
“Mesmo que eu fosse visitá-la, que benefício real haveria nisso? Ela conseguiu prover alimento e vestuário para si mesma, e até para mim. Se eu assumisse esse papel, teria de trabalhar, o que provocaria apego, aversão e inúmeras distrações, que só atrapalhariam minha prática do Dharma. Em vez disso, devo dedicar minhas energias à prática o máximo possível e, então, dedicar todas as fontes de mérito à minha mãe, para aliviar seus sofrimentos de nascimento, morte e dos estados do bardo. É melhor abandonar o apego mundano. Ela tem outros filhos que podem cuidar de suas necessidades materiais; mas não há ninguém além de mim para oferecer ajuda espiritual.”
Pensar dessa forma impede que fiquemos presos aos padrões habituais de pensamento.
Isso também nos dá pistas de como abandonar a aversão em relação aos inimigos. No início pode ser difícil superar apego e aversão, mas com prática repetida torna-se mais fácil.
Se você superar apego e aversão, deixará de acumular karma. Além disso, se investigar o estado não alterado da mente que surge quando apego ou aversão se dissolvem, encontrará a natureza da mente.
Enquanto não houver muitos pensamentos surgindo, olhe diretamente, sem distração, para a própria mente. Quando houver muitos pensamentos, examine-os como descrito. Se treinar repetidamente, o reconhecimento da natureza da mente surgirá de modo natural e espontâneo. A mente não ficará mais presa aos pensamentos, e mesmo que surjam, não terão força real; não será necessário analisá-los. Bastará permanecer no estado não alterado da mente.
Se não conseguir neutralizar um pensamento de apego ou aversão, repita o processo de investigação. Quando surgirem pensamentos, não reaja com ansiedade, pensando: “Não deveria ter pensamentos durante a meditação!” Olhe diretamente para a natureza de qualquer pensamento — positivo ou negativo — e ele perderá força e se dissolverá. Sem abandonar o estado que surge em seguida, olhe suavemente para a natureza da mente, e os pensamentos desaparecerão por si mesmos. Quando não surgirem mais em sucessão rápida, você gradualmente aprenderá a liberá-los.
Ao investigar a natureza da mente, não espere obter alguma realização extraordinária ou ver algo novo. Nem duvide de sua capacidade de meditar. Confie que a natureza da mente é simplesmente a mente deixada em seu estado não alterado. Faça todo o possível para sustentar isso, sem distração, durante e entre as sessões de meditação.
Não espere realização em poucos meses ou anos. Desenvolva ou não as qualidades da prática, mantenha determinação firme e resolva praticar diligentemente dia e noite, nesta vida, nas vidas futuras e no estado intermediário do bardo.
Compreenda isto: é mais importante internalizar as instruções essenciais do que receber uma grande quantidade de ensinamentos.
De modo geral, consulte o manual As Palavras do Meu Mestre Perfeito e verifique se sua prática está de acordo com o que ali é ensinado. Se notar algo desalinhado, corrija; se estiver apenas parcialmente de acordo, veja como pode melhorar.
Aspire a praticar o Dharma de modo autêntico e nunca faça nada que possa perturbar seus irmãos e irmãs no Dharma.
Em resumo: dedique-se ao Dharma tanto quanto puder, com corpo, fala e mente.
Certamente irei visitá-los, e sempre me lembrarei de orar e praticar por sua proteção, para que todos os seus desejos em conformidade com o Dharma se realizem.
Bibliografia Edição tibetana
bkra shis dpal ‘byor. “pha ran ser lo gsum mtshams la bzhugs mkhan rnams la gdams pa/” in gsung ‘bum/_rab gsal zla ba. 25 vols. Delhi: Shechen Publications, 1994. Vol. 3: 248b–255a
